A economia local e o fluxo imigratório
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https://tv.estadao.com.br/cidades,venezuelanos-mudam-a-face-de-uma-cidade-na-fronteira,856741 |
A reportagem realizada pela TV Estadão, em 16 de março de 2018, revela
as evidentes transformações diárias ocorridas na pequena cidade de Pacaraima.
Localizada ao norte do estado de Roraima, essa cidade do interior faz fronteira
com a Venezuela e justamente por isso a sua principal atividade econômica era o
turismo. No entanto, com a grave crise econômica e política no país vizinho, venezuelanos
se sentem atraídos para o Brasil. Acreditando na oportunidade de reconstruir
suas vidas, muitos chegam à Pacaraima em massa de imigrantes.
Contudo,
a busca por abrigo fez com que muitos venezuelanos ocupassem as próprias ruas
da cidade de Pacaraima para morar e sobreviver com suas famílias. O convívio
com uma população de rua é comum às cidades metropolitanas, mas agora também é
presente não só no dia-a-dia dos brasileiros de Pacaraima, mas no dia-a-dia dos
próprios venezuelanos que tiveram de abandonar suas casas e se abrigar nas ruas
do país ao lado as suas mulheres, os seus idosos e as suas crianças. Além
disso, um fator que dificulta os venezuelanos a se adaptarem à nova realidade
em que vivem é o idioma.
O fato de falarem em espanhol e não em português torna
difícil a comunicação com os brasileiros de Pacaraima, sobretudo, para ter
acesso a emprego, educação, entre outros mecanismos básicos de manutenção da
vida em sociedade. Mesmo com problemas para se alimentarem, por exemplo,
relatos expostos no vídeo demonstram que os venezuelanos preferem estar no
Brasil e não em seu país de origem. Segundo um deles, às vezes se trabalha um
mês na Venezuela e mesmo assim não há garantias de conseguir se alimentar.
Esta é uma das dimensões que torna a análise de fluxo migratório
complexa. Como observado na palestra da professora Rosana Baeninger sobre a nova Lei de Migração e o Estatuto do Refugiado no
curso Lei de Migração em 2019, são dramas familiares, tragédias e desafios
cotidianos que tornam difícil mensurar esse fenômeno social e econômico.
De acordo com a reportagem,
na capital de Roraima, ou seja, na região central do estado, a prefeitura
estima que haja 40mil venezuelanos e os números oficiais estimam que entre 500
e 1200 cruzam diariamente a fronteira. Para a professora, as mudanças que
ocorrem no cenário sócio espacial brasileiro na contemporaneidade por
decorrência das alterações demográficas, econômicas e políticas são o reflexo
de um espectro maior correspondente ao cenário global vigente.
O
número de pessoas em filas intermináveis é um exemplo exposto por um morador
local de transformação sócio espacial em Pacaraima. A presença de tantos
imigrantes forçou os brasileiros a se adaptarem, o que trouxe vantagens e
desvantagens para a economia local.
A falta de alimentação no país vizinho implicou
diretamente no aumento das vendas de produtos alimentícios dos comerciantes de
Pacaraima, beneficiando o crescimento econômico deste setor. Em contrapartida,
a falta de segurança, a disputa por acesso à saúde de qualidade, à moradia, à
alimentação, entre outros, provocou alarde nos mesmos comerciantes. Além de
demonstrarem na reportagem maior preocupação com o seu patrimônio, investiram
em novos protocolos de vigilância patrimonial e passaram a aceitar a moeda
chilena, por exemplo.
Outra mudança observada no setor econômico foi a queda
do movimento turístico, de migrantes que vinham do sudeste, principalmente, do
eixo Rio de Janeiro – São Paulo. Conforme o relato de motoristas da cidade, a
quantidade de transportes que garantiam o cruzamento de milhares de pessoas
diariamente na estrada que liga os dois países diminuiu de forma expressiva
assim como a quantidade de vezes que essa dinâmica se dava.
A região de Pacaraima, a sua paisagem, a economia, bem
como o estilo de vida de seus habitantes foi transformada mediante a alteração
brusca do seu contingente populacional. O impacto das alterações demográficas
no dia-a-dia das pessoas costuma ser invisibilizada por teorias científicas e
pelas políticas públicas. Por isso, o diálogo com a sociedade e com os atores
sociais envolvidos, sobretudo, em fluxos migratórios, se dá como premissa para
a diminuição dos desafios encontrados por esses, que, na realidade, buscam
apenas melhora na sua qualidade de vida, isto é, a redução das desigualdades
sociais.
